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quinta-feira, 20 de abril de 2017

Onde vamos parar?

Por que repetimos há séculos que os jovens vão matar a cultura escrita?

Sergio Rodrigues



Na plateia do debate na Bienal do Livro de Fortaleza, segunda-feira (17), a jovem estudante de jornalismo pede a palavra para se queixar da inapetência das novas gerações para a leitura de textos com mais de cinco linhas, algo que ela atribui à cultura digital. Onde vamos parar?

Menos jovem, respondo que, quaisquer que sejam os problemas atuais de leitura e concentração, convém ter cuidado com visões apocalípticas.

O meio eletrônico dominante na minha infância era ágrafo. Quando a televisão reinava, ninguém –excetuados compromissos escolares ou profissionais– precisava ler ou escrever absolutamente nada.

O mundo era cada vez mais audiovisual. Quem negaria naquele momento que a palavra escrita, se não estava com os dias contados, teria uma triste sobrevivência artificial em santuários frequentados por gatos pingados?

A internet e as mensagens de texto revalorizaram a escrita de forma surpreendente e cabal. Claro, não se trata mais da velha escrita, os códigos são outros. Mas qualquer visão de futuro que não levar isso em conta será incompleta.

Mais uma vez, a perspectiva histórica é a melhor vacina contra uma falácia que o senso comum vive tentando nos impingir: o da decadência irremediável da língua e da escrita.

Parece intuitivo. Antes havia civilização, agora estamos à beira da barbárie. Tínhamos o paraíso; caímos em desgraça. Trata-se de um mecanismo psicológico imemorial, com ramificações religiosas. A catástrofe atinge todo mundo, mas quem a denuncia sente algum conforto moral.

Em seu livro "Guia de Escrita - Como Conceber um Texto com Clareza, Precisão e Elegância" (editora Contexto), o linguista e psicólogo Steven Pinker rebobina de forma deliciosa a história das visões apocalípticas sobre o inglês.

Poderia partir de hoje, mas opta por começar em 1978 ("milhões de asneiras e descuidos de gramática, sintaxe, fraseologia, metáfora, lógica e senso comum") e recuar até 1478 ("nossa língua... difere de longe daquela que era falada e usada quando eu nasci", escreveu um tipógrafo).

Pinker ainda vai além. Chega até milhares de anos atrás ao afirmar que "algumas das tabuletas decifradas do sumério antigo incluem queixas sobre a deterioração da habilidade de escrita dos jovens". O sumério é a língua escrita mais antiga de que se tem notícia.

Conclusão do linguista: "Na realidade, o pânico moral sobre o declínio da escrita pode ser tão antigo quanto a própria escrita". Seria difícil expor de modo mais claro a vaziez do bordão preferido dos apocalípticos: "Antigamente, havia respeito às regras".

O fato é que as "regras" da norma culta –como as de todas as variedades da língua– mudam sem parar, lentamente, mas com efeitos dramáticos a longo prazo. Nossa eterna ladainha de decadência é um espetáculo tão risível quanto o de um cachorro correndo atrás do próprio rabo.

Reconhecer isso não significa negar os problemas e desafios ligados à escrita e à leitura. Também não quer dizer abandonar o apreço pela língua elegante, literária, cultivada –como Pinker não abandona.

O Brasil precisa de mais educação, não de menos. Só não vale suspirar pelo tempo em que as bacharelices afetadas do Hino Nacional passavam por bom estilo e os analfabetos eram 80% da população.

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