Alamanaqueiras: ou não queiras.

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segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

saindo pelas laterais: vale a leitura.

Em entrevista do hospital, Marcelo Yuka diz que novo disco é reação à guinada conservadora

‘Está tudo desgovernado’, diz compositor

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SC Marcelo Yuka lança "Canções Para Depois do Ódio" - Divulgação / Divulgação
O compositor, dependente de cadeira de rodas desde que foi baleado em um assalto no Rio, em 2000, explica que o disco, que deve chegar ao palco do Circo Voador em fevereiro, nasceu sob o impacto da recente guinada do mundo “pra trás” (“Trump é chocante”), defende o amor como arma, louva o hit funk “Malandramente” e afirma esperar que surja alguém na música que traga um grito fundamental, como “Que país é esse?”, que Renato Russo encravou nos anos 1980. Ou “Paz sem voz não é paz, é medo”, que o próprio Yuka, ainda com O Rappa, canalizou das ruas nos 1990.

O disco tem um calor das convulsões recentes do mundo, parece ter sido feito nos últimos seis meses.

Ele foi feito nos últimos dois anos. Tem um lado de decepção, ou melhor, de perplexidade. Mas é um disco muito melódico. Na primeira música, “O dia em que o homem se cansa”, quis botar uma coisa lenta no fim. Porque eu não quero botar uma máscara preta. Eu não sou isso. Cada vez mais eu tô ligado na questão do afeto. O que tá faltando agora é afeto. Pô, o Trump ganhou, cara. Isso é chocante. Antes, o cara que tinha isso no coração escondia. Hoje ele bate no peito. Como pode numa passeata o cara tirar foto do lado do caveirão, com orgulho? Aquilo é um instrumento de repressão doloroso.

Como você vê o Brasil hoje? O que temos?

Um nada. O presidente é um nada, os ministros cada dia cai um, porque eles são nada. A indústria privada é um nada, mergulhada na corrupção. Nunca vi isso. Quando a classe C começou a andar mais de avião, eu achava que a elite ia se acostumar. Mas essa classe não se acostuma. E não é só o Brasil, tá tudo desgovernado, a Europa...

O nome do disco fala de “depois do ódio”. O que vem depois do ódio?

Quero propor que exista algo melhor do que isso aqui. Esse não pode ser o final. Se for, é porque não acabou. Vai sair alguma coisa disso. Não sei se é a molecada das escolas, das ocupações. Ou se é um movimento de consumo zero na Europa. Só não posso concordar que acabou. Hoje tudo é show, cara. Você vê o atentado em Berlim, tem três, quatro câmeras que ficam ligadas na árvore de Natal em homenagem às vítimas, para pegar nego chorando quando bota sua vela. O entretenimento deixa a vida do lado de fora do show. E um dia ela vai quebrar o muro do estádio com uma pequena frase: “Que país é esse?”. De tempos em tempos, tem que aparecer um cara como ele (Renato Russo). Mas a gente tá vivendo esse momento em que ainda não tem. O que a gente tem hoje é “vamos sair do chão, galera”.

De onde pode vir isso na música hoje?

De algum lugar vem. Fico procurando coisas novas, quero sempre me surpreender. Ouço música eletrônica, que ainda apresenta caminhos novos. Tava ouvindo agora o disco do Martinho. Que disco bom, cara. Isso é novo! Aí dizem: “Martinho não faz nada novo”. E você ouve ele começar com piano do João Donato, aquele violino safado do Jorge Mautner... Maravilhoso. Quero me surpreender assim. Ou com a grande música de 2016, que foi “Malandramente”. Aquela melodia, aquela palavra única que é um refrão. É como “Ah, eu tô maluco”. É poesia concreta. Tinha que ter que nem em Hollywood um letreiro no alto do Pavão: “O funk é foda”. Caetano, a bossa nova é foda? O funk é mais ainda!

Nos anos 1990 você foi a voz do “Que país é esse”, em frases como “Paz sem voz não é paz é medo”...

Fui procurado para uma reportagem uma vez que dizia que esse verso foi o mais erguido em cartazes nas manifestações de junho de 2013.

Sim, mas suas canções atuais olham pro hoje, não estão falando com o Rio dos anos 1990, tentando repetir o Yuka mais jovem.

Pois é, não sou a caricatura de mim mesmo.

O disco tem um certo ceticismo, mas também muita fé.

Diria que tem mais fé que ceticismo. A música do Bruce Lee diz que a gente dá à natureza características que são nossas. “Esse mar é violento.” Nós é que somos. O mar é o mar. Mas não posso ver isso como natural. Votar no Trump não é natural. Esse disco está sob esse impacto, de ver o mundo dar uma guinada pra trás. E propõe que o amor é a maior forma de inteligência. Na fase final do disco, neste último ano, passei muito tempo de hospital em hospital. Aqui você vê tudo o mais extremo possível. Quem te nega um afeto ou quem te leva à cura por meio do carinho, não tem dois papos. Isso foi solidificando o que é o disco. Fui muito ajudado por mulheres, então o disco também tem um lado forte feminino.

Sim, você convidou muitas cantoras...

A Céu fez uma interpretação que é um sussurro. Me lembrei uma vez que o Brian Eno produzindo o U2 falou pro Bono que um sussurro pode ser mais agressivo que um grito. Ela fala no ouvido o quanto é importante não se deixar levar no rancor. Eu tinha todos os motivos pra me deixar levar pelo rancor. Para dizer que “bandido bom é bandido morto”. Mas, não. Não posso parecer com aqueles que sempre neguei.

A sonoridade do disco afina-se com seu discurso. E a escolha de “O movimento da massa” como primeira música a ser lançada, com sua letra que fala do Maracanã e das manifestações, reafirma isso.

Quem não tinha a emoção de entrar no Maracanã e ouvir o ruído da massa? E quando um garoto saiu com a máscara para a manifestação, ele saiu de casa sabendo que ia enfrentar o medo. Esse é o movimento da massa. “Eu fico livre lá no canto.” Aquilo me liberta, mesmo eu estando no cantinho do Maracanã ou da manifestação.

A energia que move esse moleque mascarado também é o amor?

A única energia contrária ao amor é o medo. Se ele se debruça sobre a tática (black bloc) de uma maneira covarde, só se torna forte ali, não acho que seja amor. Mas não sei.

Uma mostra com seus desenhos foi montada. Esses trabalhos nascem como as canções?

É sufocante ter tido um ano em instituições como essa. Os desenhos foram feitos sob esse peso.

Por que 2016 foi tão duro para a sua saúde?

Tinha que entregar o disco, trabalhei muito. Errei porque pensei: vou trabalhar, depois me cuidar. Não funciona assim. Gosto de trabalho, mas gosto de viver também. E quase arrisco um pelo outro.


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