Alamanaqueiras: ou não queiras.

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quarta-feira, 30 de novembro de 2016

que venha a dezembrada.

 Luis Felipe Miguel


O general João Figueiredo passou à história como um ditador carrancudo e inábil, símbolo do ocaso do regime militar no Brasil. Mas quando ele foi escolhido para suceder o general Ernesto Geisel, tentaram apresentá-lo como um militar bonachão e popular, cujo governo promoveria a "conciliação nacional". Ao contrário de Geisel, Figueiredo se expunha à mídia, era exibido em cerimônias públicas e tinha até um programa semanal de rádio, em que pretensamente respondia a questões espontâneas de ouvintes, intitulado "O povo e o presidente". A propaganda oficial o chamava pelo prenome: "João".



Toda esta estratégia de marketing desabou no dia 30 de novembro de 1979, quando Figueiredo e vários de seus ministros apanharam da população no centro de Florianópolis. A visita foi amplamente propagandeada pelo governo estadual, então nas mãos do governador nomeado Jorge Bornhausen. Uma pequena multidão foi reunida para ver o general-presidente, mas, em vez de aplaudi-lo, uniu-se ao protesto organizado por estudantes.

Das sacadas do Palácio Cruz e Sousa, Figueiredo fez um gesto interpretado pelas pessoas da praça como obsceno. Com isso, as palavras de ordem contra a ditadura foram trocadas pelo popular "filho da puta". O general não admitiu a ofensa e decidiu resolver a questão no braço. Descendo as escadarias do palácio, ainda teve tempo de dar uma declaração antológica à imprensa, em que mesclava a ingenuidade de um valentão de dez anos de idade entrando na briga ("não mexam com minha mãezinha") com a arrogância do ditador ("o país é meu"):

- Eu gostaria de perguntar porque é que a minha mãe está em pauta. Eles ofenderam a minha mãe. Porque isso? Porque esta baixeza? Se são esses os argumentos que eles têm, ah, podem ir para a Rússia para apresentar estes argumentos. Aqui no meu país, não.

A segurança ainda conseguiu escoltar o general para um café próximo do palácio, o Ponto Chic, onde ele iria cumprir mais um ritual de marketing. Mas o café foi cercado e lá Figueiredo e sua comitiva receberam umas boas bolachas do povo de Florianópolis.

A "novembrada", como o episódio ficou conhecido, completa hoje 37 anos. Ela marcou o fim da estratégia de "popularização" da ditadura militar.

Quando precisamos, mais do que nunca, da resistência ativa nas ruas, da afirmação sem ambiguidades de que não aceitamos o regime que se impõe sobre nós, a novembrada de 1979 - liderada pelos estudantes - precisa ser lembrada.


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